
Enquanto os EUA pensam em ano que vem já colocar em prática testes de terapia a partir de células-tronco embrionárias, no Brasil a permissão oficial para o uso dessas células em pesquisas só saiu oficialmente pelo Superior Tribunal Federal em maio deste ano. Ao contrário do que pode sugerir a burocracia brasileira, graças a pesquisadores da USP e da UFRJ, desenvolvemos metodologias inovadoras e estamos a caminho de criar novas tecnologias neste campo da ciência. Em outubro, no III Simpósio Nacional de Terapia Celular, foi apresentada a obtenção da primeira linhagem 100% nacional das células-tronco embrionárias.
O engenheiro químico Paulo André Nóbrega Marinho, doutorando da Coppe-Ufrj (Coordenação dos Programas de Pós-graduação em Engenharia) está engajado numa pesquisa pioneira no país: aumentar a escala de produção das células-tronco embrionárias. O mérito da pesquisa é a aplicação de uma metodologia nacional que usa biorreatores para o cultivo das células-tronco ao invés de placas. “Dos artigos científicos do mundo, 99% reportam o cultivo de células utilizando as placas e para as terapias é impossível trabalhar com placas. Um reator produz a mesma quantidade que mil placas” – conta Paulo André, explicando, como gosta de frisar que “sem medo de errar” o Brasil está hoje junto com o mundo na parte de tecnologia de “escalonamento”, ou multiplicação de células.
As células-tronco embrionárias são a origem de todas as demais células do organismo, um biomaterial com potencial para a reposição de tecidos do corpo. Para que no futuro possam ser usadas na terapia de doenças degenerativas como Alzheimer e Parkinson, é preciso otimizar as condições de cultivo dessas células em laboratório e principalmente ampliar a escala de obtenção delas. Para cada quilo um indivíduo necessitará de cerca de um milhão de células.
Orientado por Lêda Castilho (Coppe - Ufrj) e Stevens Rehen (Centro de Ciências da Saúde - Ufrj) e com os conhecimentos de biologia da também doutoranda Alice Marie Fernandes, Paulo André ambiciona montar biorreatores nacionais, já que os utilizados nos laboratórios brasileiros são importados da Alemanha ou Suíça, têm um custo de cerca de 200 mil reais cada e levam até seis meses para chegar ao Brasil em função das burocracias na alfândega.
Para se ter uma idéia da importância do uso dos biorreatores, num teste clínico com cerca de 100 pessoas, seria necessário mais de mil placas de cultivo monitoradas uma a uma por muitos cientistas. O tratamento ficaria inviável de tão custoso. Ao invés de milhares de placas, a metodologia sugerida utiliza o reator de 5 litros. “O reator otimiza a reprodução das células, porque ele só precisa ser monitorado por um cientista, todas as células produzidas ali recebem as mesmas condições de tratamento e são, portanto iguais.” – esclarece o cientista. Do ponto de vista terapêutico, a produção de células num único ambiente, o reator, é mais fácil e correto, é um sistema mais econômico e prático.
Outro desafio é a definição de meios de cultivo de células-tronco. Ainda utilizam-se células oriundas de camundongo nesses meios e a ciência teme rejeição do corpo humano a esses fibroblastos. Paulo André procura desenvolver um “meio totalmente definido”, ou seja, todo monitorado, onde não restem dúvidas sobre as substâncias ali presentes. “Dois ou três meios totalmente definidos já foram descobertos em pesquisas internacionais, mas o custo para usar esses meios fica inviável para o Brasil, é preciso pagar patente, taxas de importação e do revendedor.” – explica. Ele estima que o custo de um desses meios importados chegue a dois mil reais por litro. Seriam dez mil reais por dia tendo como base o teste clínico para cem mil pessoas. “Temos equipe e competência para produzir o nosso, por que não tentar?” – diz confiante.
Uma das prova de que o que fazemos aqui é reconhecido internacionalmente é o professor Allysson Muotri, que apesar do nome, é brasileiro e professor da UCSD (University of California San Diego). Colega de Stevens Rehen no pós-doutorado nos EUA, Muotri vai dar aulas a Paulo André, que passará o próximo ano na Califórnia, continuando os estudos iniciados nos laboratórios da Coppe.

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