domingo, 23 de novembro de 2008

Arte politizada made in Brazil



Instaurada a polêmica em torno da retomada da construção da Usina Nuclear de Angra 3, que desde julho está com licença prévia do governo, volta à baila a questão do uso da energia nuclear, disseminada como limpa por não poluir o ar com CO2. O Bradesco foi conversar com a artista Alice Miceli para aprofundar a discussão e vê-la por outro prisma, que não o dos especialistas em meio ambiente.

Formada em cinema na École Supérieue d`Étude Cinématographic em Paris e com especialização em história da arte e arquitetura pela PUC-Rio, Alice Miceli é um dos jovens artistas contemporâneos do Brasil que ganham espaço na cena internacional. Carioca de 28 anos, Alice vive há cerca de um ano e meio em Berlim, investindo energias no Projeto Chernobyl.
Intitulado Marcas do Invisível, o projeto vencedor do Prêmio Sérgio Motta de Arte e Tecnologia em 2006, ambiciona tornar visível a radioatividade excessiva de Chernobyl, na Bielo-Rússia, onde aconteceu o maior acidente nuclear da história, em abril de 1986. Antes de ir a campo, a artista passou um ano pesquisando no Instituto de Radioproteção e Densidometria do Rio de Janeiro e com a ajuda de seu orientador Luiz Tauhata, desenvolveu uma câmera pin-hole de chumbo, especialmente criada para ir até a zona de exclusão. A máquina de mais de 60 quilos, trazida do Rio até a Alemanha, capta os raios gama ao invés da luz. O que ela revela é mais parecido com um raio-x do que com uma fotografia, são manchas azuladas que remetem às partes contaminadas pela radiação.

Depois de três estadas em Gomel, cidade bielo-russa com estrutura de hospedagem mais perto da área protegida, a uma média de uma hora de carro de lá, Alice revelou há menos de um mês os primeiros negativos e ficou animada com o resultado. “Os impressos dos negativos 40x30cm são promissores. Dos pequenos pin-holes que espalhei ainda não dá para ter idéia do que vai dar realmente para ver.” – conta a artista em entrevista num café em Prenzlauer Berg, o bairro onde morou assim que chegou à Alemanha. No momento ela vive em Kreuzberg, “para conhecer outro lado da cidade também”.

Mais em: http://chernobylbyalicem.blogspot.com/

Perfil Hermano Vianna



Ele não tem celular, mas é criador do Overmundo, site brasileiro ganhador do Golden Nica (troféu principal) na categoria Comunidades Digitais do Prix Ars Electronica 2007, um dos prêmios mais importantes do mundo para visionários da internet. Ele não é músico profissional, mas é uma das peças-chaves do movimento funk carioca, além de irmão de Herbert, vocalista dos Paralamas do Sucesso.
Hermano Paes Vianna Júnior é doutor em antropologia pela UFRJ, adora música, tecnologia e cultura brasileira. Com dois livros publicados pela editora Zahar, O Mistério do Samba (1995) e O Mundo Funk Carioca (1988), Hermano Vianna conta sobre essa mistura de interesses em entrevista da maneira que ele mais gosta: por email.

1) O que vem primeiro, seu interesse pela antropologia ou pela música?

Muitas vezes me interessa mais a maneira como as pessoas fazem música ou ouvem música do que a música propriamente dita. Isso não quer dizer que gosto das músicas por razões antropológicas, mais do fenômeno social que as envolve, do que de suas qualidades estéticas. Uma coisa ajuda a outra. As duas coisas estão sempre bem misturadas. Por exemplo: quando fui a primeira vez a um baile funk, o que interessava era a música. Só depois transformei ir ao baile em pesquisa antropológica. A pesquisa me fez gostar cada vez mais da música, justamente por achar fascinante o modo como aquele estilo musical desenvolveu também um estilo de vida tão central para a gente entender a vida no Rio de Janeiro de hoje e depois por fazer tanta gente dançar em pistas de dança da moda pelo mundo afora, da Estônia ao Japão. E a música propriamente dita foi constantemente se recriando de uma forma surpreendente, inventando novas batidas, cada vez mais originais e cariocas. E assim é para a maioria das músicas que gosto...

2) Veio dessa conjunção de interesses o trabalho com a cultura digital livre? Quando e como surgiu o Overmundo?

O Overmundo surgiu justamente para usar as vantagens da internet para divulgar melhor a diversidade da cultura brasileira, principalmente aquela produzida fora dos palcos mais iluminados do eixo Rio-São Paulo. Os jornais e revistas de circulação nacional não têm mais sucursais nem correspondentes em todas as regiões do país. A produção é enorme e variada, mas só uma parcela mínima consegue divulgação e crítica na imprensa tradicional. Então pensamos: por que não criar um site com processo editorial totalmente descentralizado, onde pessoas de todos os cantos do Brasil podem mostrar o que está acontecendo nas artes locais e elas mesmas decidem o que será publicado e terá destaque? A Petrobras acreditou na idéia e a patrocinou. O Overmundo tem 2 anos no ar, quase 1 milhão de visitas por mês. O sucesso de um site que não publica nada que os outros sites determinaram que é popular mostra que tem muita gente querendo coisas diferentes.

“Não gosto mesmo de estar em sala de aula com horários e professores. Gosto de aprender as coisas do meu jeito, com as minhas leituras"




Gaúcha radicada em São Paulo, vocalista da banda Oneyed Cat, mãe de Catarina e escritora que fez fama na internet antes mesmo de publicar três livros. Clarah Averbuck é um dos nomes mais comentados da literatura nacional contemporânea principalmente depois do longa-metragem Nome Próprio, de Murilo Salles, inspirado no primeiro romance da autora, Máquina de Pinball.

Clarah começou postando textos no fanzine enviado por email Cardosonline em 98, depois passou a escrever no blog Brazileira!Preta que conquistou leitores fiéis. Determinada a continuar escrevendo, como ela conta no novo endereço eletrônico www.adioslounge.blogspot.com, a autora está lançando o livro Nossa Senhora da Pequena Morte, com ilustrações de Eva Uviedo. A parceria é uma publicação seriada, são somente 200 exemplares que vem encartados em capas de LPs encontrados em sebos.
Nas linhas abaixo, a escritora conta do lançamento do novo livro, do processo criativo de escrever, das referências literárias, do dia-a-dia.

Como foi o processo de publicação do seu primeiro livro? Você foi bater na porta de uma editora?
Eu comecei a publicar na internet em um e-zine (era um fanzine por email, na verdade) chamado cardosonline, que durou de 98 a 2001. Lá também escreviam outros jovens literatos, como Daniel Galera, Daniel Pellizzari e o Cardoso, que na verdade se chama André Czarnobai. O e-zine acabou mas tinha cerca de 5.000 assinantes e muita gente ligada a jornalismo, literatura e do meio editorial lia. Foi assim que fiz o primeiro contato com o pessoal da Conrad (editora) - eles liam o nosso zine. Quando comecei meu romance, enviei um trecho ao editor, André Forastieri, e ele se interessou.

A protagonista do filme Nome Próprio, inspirada na Camila do Máquina de Pinball tem necessidade de escrever. É esse também o seu caso ou você acha que poderia substituir essa atividade por outra? O que é maior, a paixão pela literatura ou pela música, se é que dá para compará-las?
Bom, eu sou bem diferente daquela moça do filme, mas tenho, sim, necessidade de escrever. Todo artista tem necessidade de criar. Não posso comparar música com literatura porque são dois processos diferentes. Escrever é um exercício solitário. E compor, para mim, é exatamente o contrário, criar com outros. Não fico bem sem nenhuma das duas. Quando estava sem tocar ficava cantando bem alto de fones na rua, parecia um pouco demente.

Como é seu processo de criação, o que é essencial para você conseguir se concentrar para escrever?
Solidão e silêncio.

Brasileiro no cenário de arte internacional.



“Qual artista que você está procurando, é o alemão?” – Assim esta repórter que vos fala foi indagada entre as pilastras do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro ao perguntar se alguém havia visto o artista Alex Flemming, com quem tinha um encontro marcado. Logo me levaram até ele, que estava escondido numa sala de “ensaio” do MAM-RJ onde testava o funcionamento da instalação que está exposta de 13 de outubro a 14 de dezembro.

Flemming é um dos grandes nomes representantes da arte contemporânea brasileira no cenário internacional; apesar de morar em Berlim há dezessete anos, é e considera-se brasileiríssimo, paulista de pai e mãe. Sistema uniplanetário In Memoriam Galileo Galilei, a obra que está compõe sua individual no Rio parece ser fruto dos caminhos que traçou pelo mundo. Filho de um piloto de avião e de um aeromoça, o artista sempre viajou bastante, morou nos Estados Unidos quando criança, depois Lisboa. Nos anos 80, após estudar na FGV para “dar o diploma para família” e abandonar no 3º ano o curso de arquitetura na USP, Flemming ganhou uma bolsa Fullbright e foi estudar em Nova York por alguns meses. Foi o único momento em que desenvolveu um estudo formal em artes.

Matéria sobre Documenta 12, Kassel, Alemanha

Publicada na revista Vizoo, RJ.





Em inglês no http://documenta12byanah.blogspot.com/