domingo, 23 de novembro de 2008

Perfil Hermano Vianna



Ele não tem celular, mas é criador do Overmundo, site brasileiro ganhador do Golden Nica (troféu principal) na categoria Comunidades Digitais do Prix Ars Electronica 2007, um dos prêmios mais importantes do mundo para visionários da internet. Ele não é músico profissional, mas é uma das peças-chaves do movimento funk carioca, além de irmão de Herbert, vocalista dos Paralamas do Sucesso.
Hermano Paes Vianna Júnior é doutor em antropologia pela UFRJ, adora música, tecnologia e cultura brasileira. Com dois livros publicados pela editora Zahar, O Mistério do Samba (1995) e O Mundo Funk Carioca (1988), Hermano Vianna conta sobre essa mistura de interesses em entrevista da maneira que ele mais gosta: por email.

1) O que vem primeiro, seu interesse pela antropologia ou pela música?

Muitas vezes me interessa mais a maneira como as pessoas fazem música ou ouvem música do que a música propriamente dita. Isso não quer dizer que gosto das músicas por razões antropológicas, mais do fenômeno social que as envolve, do que de suas qualidades estéticas. Uma coisa ajuda a outra. As duas coisas estão sempre bem misturadas. Por exemplo: quando fui a primeira vez a um baile funk, o que interessava era a música. Só depois transformei ir ao baile em pesquisa antropológica. A pesquisa me fez gostar cada vez mais da música, justamente por achar fascinante o modo como aquele estilo musical desenvolveu também um estilo de vida tão central para a gente entender a vida no Rio de Janeiro de hoje e depois por fazer tanta gente dançar em pistas de dança da moda pelo mundo afora, da Estônia ao Japão. E a música propriamente dita foi constantemente se recriando de uma forma surpreendente, inventando novas batidas, cada vez mais originais e cariocas. E assim é para a maioria das músicas que gosto...

2) Veio dessa conjunção de interesses o trabalho com a cultura digital livre? Quando e como surgiu o Overmundo?

O Overmundo surgiu justamente para usar as vantagens da internet para divulgar melhor a diversidade da cultura brasileira, principalmente aquela produzida fora dos palcos mais iluminados do eixo Rio-São Paulo. Os jornais e revistas de circulação nacional não têm mais sucursais nem correspondentes em todas as regiões do país. A produção é enorme e variada, mas só uma parcela mínima consegue divulgação e crítica na imprensa tradicional. Então pensamos: por que não criar um site com processo editorial totalmente descentralizado, onde pessoas de todos os cantos do Brasil podem mostrar o que está acontecendo nas artes locais e elas mesmas decidem o que será publicado e terá destaque? A Petrobras acreditou na idéia e a patrocinou. O Overmundo tem 2 anos no ar, quase 1 milhão de visitas por mês. O sucesso de um site que não publica nada que os outros sites determinaram que é popular mostra que tem muita gente querendo coisas diferentes.

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